cancioneiro da minha terra

Cantares ao desafio:


Ó Fado ,ó triste Fado!
Ó Fado, tu foste o primeiro.
Hei-de  te mandar prender
Ás grades do Limoeiro!

Ó Fado, ó triste Fado!
Ó Fado que já não és!
Ó Fado que te viraste
Da cabeça para os pés!

Duas noites há no ano
Que alegram o coração
É a noite de Natal
E a noite do S. João!

A mulher quando se ajunta
A falar na vida alheia
Começa na Lua-Nova
E acaba na Lua-Cheia!

O Diabo leve os ratos
Leve os dentes às formigas
Que me roeram o saco
Onde eu trazia as cantigas!...

Quando era rapaz novo
Usava sapatos brancos!
Agora que sou velhote
Já nem botas nem tamancos!

Agora começo eu
a desfolhar o meu caderno:
Os homens vão para o Céu!
As mulheres para o Inferno!...

Desculpem meus senhores
aqui vir sem ser chamado.
Se algum castigo mereço,
Espero ser perdoado!

Anda cá primo Manuel,
Anda cá primo Luís,
Nem por mais que tu te mates,
Já não  fazes o que eu fiz!

Espero ser perdoado,
Ainda torno a teimar!...
Minha terra é Alvite!
Nunca o devo negar!

Cantares de Roda:

Lá vai trapalhão para o meio
Para a Roda não andar !...
Ora anda, desanda a Roda!
Torna a Roda a desandar!...

Comunhão Solene:

Toca badalinho,
Toca pelo ar!
Toca badalinho,
Até quebrar!...


Cantares de Romaria:

Milagroso São Torcato,
Quem te varreu o terreiro?
Foram as meninas de Cabaços
C'um raminho de loureiro!...

Vai devagarinho!
Trai-la-ri-ló-ló!
Vai devagarinho!
Qu'alevanta o pó!...

Cantigas de amor:

Namorei a tecedeira
Pelo buraco da chave.
Ela estava ruca-truca!
Minha porta não se abre!...

Minha porta não se abre.
Minha porta não se há-de abrir!
O papá estava acordado,
A mamã estava a dormir.

A mamã estava a dormir,
O papá estava acordado!...
Ela estava ruca-truca,
A  tecer com mais cuidado!...

Os Versos que se vão seguir foram-me entregues
gentilmente por elemento da Junta de Freguesia
de S. João de Tarouca que os obteve
junto do Rancho da mesma freguesia


O PAPAGAIO DA RITA
I
ELAS:
O papagaio tem penas
Verdes e amarelas -BIS
São de várias cores!...
TODOS :
Gente bela
Desta mocidade -BIS
Guardai lealdade
Aos vossos amores .
II
ELES :
O papagaio da Rita
É todo catita - BIS
Já sabe falar !...
TODOS :
Guarda bem
O que a Rita faz
E ao seu rapaz -BIS
Tudo vai contar !...
III
ELAS :
A videirinha que chora
Ainda não namora BIS
Também quer amar !
TODOS:
Papagaio
Enxerta a videira
Que ainda está solteira -BIS
Para namorar
IV
ELES :
O papagaio da Rita
é todo catita !
Tive essa dita -BIS
Mas morro, se minto
TODOS :
Por uma coisa tão pouca
Pica-me a boca,
Não sei que sinto !...
V
TODOS:
E o papagaio ao ver
Logo foi dizer BIS
Pois nada calou !
TODOS :
E o namorado da Rita
Não gostou da fita BIS
E tudo acabou...


LAURITA
I
Ó Laurita eu marcho p'ra guerra
Uma carta te vou escrever BIS
Se tu quiseres ir comigo,
Ai, depressa te mando dizer BIS
II
Ó Laurita ,Laurita, Laurita ,
Ó Laurita do meu coração, BIS
Ia-te ver ao Brasil,
Ai, nas asas dum avião -BIS
III
O carteiro à porta da Lama
Uma carta à Lama lhe deu -BIS
A Lama ao ler a carta,
Ai, um acidente lhe deu - BIS
IV
Não me mates, meu Deus, não me mates .
Não me mates, ó meu Deus, não, não -BIS
Se matas, matas meu ídolo,
Ai, que trago no meu coração BIS
V
Ó Laurita, Laurita, Laurita,
Eu da guerra hei-de voltar a vir
P'ra isso anda comigo,
Ai, ao Senhor vamos pedir -BIS

ROLINHA
I
Quem no meu peito entrou
Fez a derrota que quis
Levou a flor e a rama
Também levou a raiz

CORO:
Ora bate, bate, já canta a rolinha
Ora bate, bate, no ninho sozinha
Ora bate, bate, já canta a rolinha
Ru, Ru, Ru ,Ru, no ninho sozinha.
II
Aqui tens meu coração,
Retalho como marmelo,
Dentro dele poderás ver
O bem e o mal que te quero.
III
Aqui tens meu coração
Se o queres matar bem podes
Mas olha estás dentro dele
Se o matas também morres.
IV
Mete a mão neste meu peito
Rasga o véu deste meu lado
Verás então toda a ferida
Das paixões que me tens dado.


VIRA PULADINHO
I
Quando um dia me falaste
à porta da minha mãe
Eu virei e tu viraste
e o mundo virou também .
Refrão:
Vira o puladinho
P'rà frente e p'ra trás
O vira é velhinho,
mas sempre rapaz

Dá volta à cabeça
Como um vinho novo
A moda travessa
da gente do povo

II
Depois das voltas do vira
fiquei de cabeça tonta
Disseste tanta mentira
Que já lhe perdi a conta !

A MOLEIRINHA
I
Minha mãe era padeira,
Eu sou uma padeirinha,
O meu pai era moleiro,
Eu sou uma moleirinha .
II
Venho lá do meu moinho
Onde moi a pedra alveira
Fui lá buscar a farinha
p'ra passar pela peneira
III
Meu pai foi à freguesia
Foi lá buscar a taleiga
A tocar o jumentinho
Com vara de marmeleiro .
IV
Minha mãe com a farinha
Amassa e faz o pão
Dançamos a moleirinha
À moda de S. João.

SOLTEIRINHA
I
Minha mãe case-me cedo,
Ai, enquanto sou rapariga -BIS
Que milho sachado tarde,
Ai, não dá planta nem espiga -BIS
CORO :
Ora diz ao teu pai ,
Ora diz-lhe depois,
Que te dei uma surra ,
Com a vara dos bois! BIS
II
Casa-te ó solteirinha,
Ai, não queiras morrer donzela BIS
Não queiras levar teu brio,
Ai, para debaixo da terra BIS
III
Quando passares por mim ,
Ai, deita os olhos ao chão -BIS
Podemos querer-nos bem ,
Ai, e o mundo julgar que não. BIS
IV
Água chove, o rio cresce ,
Ai, tanta água, donde vem? -BIS
Vem dos teus olhos, menina ,
Ai, ou do coração de alguém. - BIS
V
Os teus olhos negros,
Ai, são cor da noite cerrada - BIS
Mas apesar de tão negros,
Ai, sem eles não vejo nada. - BIS

VERDE GAIO
I
O verde gaio tem penas ,
São verdes e amarelas,
Ai da mãe que cria um filho
Para andar de cima delas. -
II
Encontrei o verde gaio
Lá em baixo na Ribeira
Com a guitarra na mão
Para ir p'ra brincadeira.
III
O verde gaio é meu
Custou-me um bom dinheiro
Custou-me quatro vinténs
Em dinheiro brasileiro.
IV
Encontrei o verde gaio
À minha porta a pedir
Não sei se lhe dê esmola ,
Se o mande ir dormir .

OLIVEIRA
I
De baixo da oliveira
Não se pode namorar, -BIS
ai, ai, ai, tem a folha miudinha,
ai, ai, ai, deixa passar o luar. -BIS
II
À entrada de S. João
Está uma oliveirinha - BIS
ai, ai, ai, onde vão os conversados,
ai, ai, ai, ao domingo à tardinha. -BIS
III
Ai, ai, ai, agora me fica o nome
Ai, ai, ai, Oliveira para sempre. - BIS
IV
A oliveira do Adro
Tem a folha recortada - BIS
Ai, ai, ai, que lha recortou o vento,
Ai, ai, ai, de manhã, de madrugada. - BIS
V
Oliveira pequenina
Que azeitona podes ter, -BIS
Ai, ai, ai, terás uma, terás duas ,
Ai, ai, ai, terás as que Deus quiser. - BIS
VI
Varejai varejadores ,
Apanhai apanhadeiras, -BIS
Ai, ai, ai, apanhai baguinhos de ouro,
Ai, ai, ai, que caem das oliveiras.  - BIS

MADRUGADA
Vai tão linda a madrugada
Que a sua amada encantada
Tem vontade de dormir ,
São as estrelas do céu que parecem
Olhos meus, com vontade de dormir .

Tu és linda, foras feia -BIS
Eu assim mesmo te queria!
Não é por ser lua-cheia - BIS
Que a lua mais alumia !

Tu já não vens à janela, -BIS
Nem de mim tens piedade,
Vou quebrar minha guitarra -BIS
E vou morrer de saudade. -BIS

LARANJINHA
I
Atirei com a laranja ao ar !...
Laranja ao ar caiu na areia
Ai, ai, ai, ó meu amor,
Já não achas quem te queira. BIS
II
Já não achas quem te queira ,
Mesmo na cara to digo,
Minha mãe quando me criou
Não foi p'ra casar contigo
III
Já não achas quem te queira,
Quero-te eu, ai, coradinha
No ventre de tua mãe
Já te eu amava, menina .
IV
O meu amor não é este ,
O meu amor de chapéu !
O meu amor, ao pé deste,
Parece um anjo do céu BIS
V
Quem quiser a laranjinha
Vai buscá-la à laranjeira
Rouxinol, repica e canta,
Vem cantar à minha beira BIS
VI
A laranja quando nasce
Nasce logo redondinha
Também quando tu nasceste
Pois já foi para seres minha BIS

(Recolha do Rancho da Freguesia de
 S. João de Tarouca em Março de 2001)


Questão de idades:

Namorar aos catorze!
Casar aos dezasseis!
Quem me dera o teias-de-aranha
Daquilo que vós sabeis!


Modinhas do Vira:

Meninas vamos ao Vira,
Que o Vira é coisa linda !
Eu já vi dançar o Vira
Às meninas de Coimbra!

Meninas vamos ao Vira,
Que o Vira é coisa boa!
Eu já vi dançar o Vira
Às meninas de Lisboa!...

Meninas dancemos o Vira
Até o sapato romper !...
O sapateiro é pobre
Ajudai-o a viver !...

Modinhas algarvias:

Eu hei-de ir ao Algarve,
Hei-de lá estar oito dias!...
Aprender a bailar
A moda das algarvias!...

A moda das algarvias
Não tem nada que saber!...
É uma perna no ar,
Outra no chão a bater!...

Coisas  de ratinhos:

Ó rapaz que és casado
Que é da tua rapariga?
Já lá vai pelo mar fora
Na folhinha da urtiga!...

Na folhinha da urtiga,
Na folha do urtigão!
Ao passar a Ponte Nova
Caiu a pena ao pavão!...

Caiu  a pena ao pavão
Caiu a pena à pavoa!...
Ao passar a Ponte Nova
Quando ia pr'a Lisboa

Quando ia pr'a Lisboa
Quando ia para Rio Frio
Ao passar a Ponte Nova
Caiu a pena ao rio!

Onze horas, meio-dia!...
Ó do lume, faz fogão.
Ó do barril, vai à água.
Ó do saco, traz cá pão.

Cantares das Segadas:

Chora a Vareira,
Ó vareirinha !
Chora a Vareira,
Ó rosa minha!

Ai, Ai, Ai, Ai!
Foi no banco do hospital!...
Estive à espera
Três horas e tal !...
Ai, Ai, Ai, Ai !...

Esfarrapa o Pedro!
Esfarrapa-o bem!
A mulher do Pedro
Nem farrapos tem!..

Cantares de Pastores:

Eu hei-de ir à serrinha,
Só para ver a mocidade!...
Toma lá, dá cá!
Dá cá, toma lá!
Amor como o meu
Já não há, não há!...

Viva Vila Chã do Monte!
Não é vila nem cidade,
Mas é um lugar
Onde reina a mocidade!...

Estava a assar castanhas
Estava o lume a arder
Queimei o meu vestido
Sem ninguém saber!..

Se fosse a minha saia
Nada se me importava
Era o meu vestido
Com que eu namorava!

Cantares da novena do Natal:

Do varão nasceu a vara
Da vara nasceu flor!
De flor nasceu Maria
De Maria o Redemptor !


Pequenino, está deitado
Em palhinhas, Deus infante!
Ai não há no Céu estrelado
Astro d'oiro mais brilhante!...

Dia de Natal

Alegrem-se os Céus e a Terra,
Cantemos com alegria!
Já nasceu o Deus-Menino
Filho da Virgem Maria!..

Á lareira em dias de chuva e neve:

Está a chover e a nevar
A raposa no quintal.
A Maria farrusqueira
Com as mamas na pilheira!...

Atitude perante a Morte:

Quando eu morrer
Não quero choros nem gritos.
Só quero à cabeceira
Um garrafão de cinco litros!...

Ó morte, terrível morte
Contra ti tenho mil queixas.
Quem hás-de levar não levas!
Quem hás-de deixar não deixas!...

Cantigas de maldizer:

Viva Vila Chã do Monte!
No meio tem um fieito!
Os rapazes ainda, ainda,
As raparigas não têm jeito!

Sapateiros e alfaiates
São um bando de ladrões!
Venderam  Nosso Senhor
Por uma quarta de feijões!

Sapateiro rouba nas solas!
Alfaiate nos botões!...

É pau, é pau!
É pau e faz colheres!
Não  há pau como o dos homens!
Enche a barriga às mulheres!...

Na noite que m'eu casei
Foi uma pouca vergonha!
Andei toda a noite aos tiros
Com uma espingarda sem coronha!

Casei-me com uma velha
Por causa da filharada.
Vai o diabo da velha
Traz-me logo dez d'uma ninhada!...

Pus-me a cagar de joelhos
Para não borrar o capote!
Dei um peido, saltei ao ar!
Fiquei das bandas da morte!

Pus-me a cagar ferros-velhos,
Aldravas e fechaduras!
Nunca na minha vida
Tinha cagado coisas tão duras!

Isto vai de dlim-dim-dim
Isto vai de trás da orelha!...
O padre da nossa terra
Emprenhou a nossa ovelha!...

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Página concebida e desenhada por Jaime Luís
Actualizada em Dezembro de 2002